Tiago Massoni

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Associate Professor at UFCG researching human factors in software engineering, software evolution, and interdisciplinary computing in Brazil.

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Uma mãe, uma filho, uma perda, uma rede social

Comentário: Morte e a tecnologia Data: March 2, 2022 Palavras chave: memória, twitter

Como as redes sociais lidam com a morte dos usuários? Recentemente, um caso comovente de uma troca de mensagens entre mãe e filho despertou esse questionamento em muitos usuários.

Uma mãe em Portugal responde a postagens na rede social de seu filho, que na verdade faleceu há mais de dois anos. O assunto repercutiu no último mês, e trouxe a tona uma questão: como as plataformas de rede social lidam com a morte?

Bom dia ouvintes da CBN,

“Meu filho, meu amor. Não consigo ir dormir sem te dizer que o teu irmão já chegou. Estão bem. Queria tanto saber se tu estavas bem. Amo-vos tanto meus filhos”, escreveu a professora aposentada portuguesa Assunção Fernandes, de 69 anos, no Twitter, no início de Fevereiro.

Assim como outras que ela escreve, todos os dias, a postagem foi uma resposta à publicação feita no mesmo dia pelo perfil do filho mais velho dela, Pedro Gama, que faleceu em 2019. A Professora, porém, manteve uma rotina: responder a todas as mensagens compartilhadas diariamente no perfil de Pedro.

A história de mãe e filho ganhou repercussão na Internet — a notícia teve mais de 13 mil curtidas no Twitter, e comoveu o público em Portugal e também aqui no Brasil.

O filho dela era um funcionário público lá em Portugal, que costumava viajar bastante pra conhecer culturas diferentes. Era conhecido como uma pessoa alegre e solidária. Ele era muito ativo nas redes sociais: no Instagram, no Facebook e no Twitter, e ensinou por exemplo a mãe a mexer em diferentes tecnologias, tanto que ela sabe hoje fazer postagens no Twitter.

Foi justamente nas redes sociais que Pedro viu a chance de continuar, de certa forma, ativo mesmo após morrer. No Twitter, ele recorreu a um bot (robô) para programar diariamente a publicação de emojis. Ele morreu aos 43 anos, em decorrência de um câncer. Nas redes, o perfil dele continuou compartilhando publicações diárias.

Sentindo a dor da saudade do filho, a mãe dele viu as publicações no perfil dele e começou a interagir com elas. Ali, começou a compartilhar as novidades, detalhes sobre o cotidiano da família, demonstrando de algum jeito o amor pelo filho.

Segundo a Professora, essas publicações se tornaram uma forma de “desabafar” com ele. Essa atitude, ela acredita, a ajuda a enfrentar a saudade. No início de Fevereiro, a interação da mãe com o perfil do filho foi compartilhada por um perfil com 3 mil seguidores no Twitter, alcançando uma enorme repercussão.

Ao ler sobre essa estória, comecei a refletir como, no presente tecnológico que vivemos, a vida virtual nas redes sociais permanece diante da perda de vidas reais.

Acho que nunca havia pensado sobre isso: o que acontece com todos as postagens, fotos e vídeos nos perfis de uma rede social de uma pessoa quando ela morre?

São coisas que a gente acaba nem considerando; como qualquer bem ou serviço — conta bancária, imóveis —, os que se vão deixam no ar as suas contas nas redes sociais.

Ao pesquisar um pouco sobre o assunto, vejo que as plataformas já pensam nisso há algum tempo. Facebook, Instagram e Twitter oferecem aos familiares de uma pessoa a opção de transformar uma conta em uma espécie de memorial, transferindo o controle da conta para alguém da confiança da família. Nós mesmos podemos nos antecipar e fazer isso agora, nomeando alguma pessoa nas configurações da conta, o chamado contato legado. Esse tipo de usuário nomeado não tem o mesmo controle do usuário original, podendo apenas mudar foto de perfil, escrever uma postagem de homenagem e responder pedidos de amizade. No perfil, aparece a mensagem EM MEMÓRIA DE antes do nome da pessoa.

Caso os usuários não queiram que seu perfil se transforme em memorial, eles podem escolher apagar a conta completamente, assim que algum familiar ou amigo enviar um atestado de óbito para a empresa dona da plataforma.

Essa já é considerada uma questão séria, tanto que existem países como França e Hungria com regulação para obrigar qualquer plataforma de nuvem ou rede social a definir e disponibilizar dispositivos de recuperação pós-morte. Há preocupação, por exemplo, com o risco de contas assim serem sequestradas por golpistas, para uso em roubo de identidade e outros tipos de fraude, se não forem propriamente terminadas.

Ah, já há casos registrados de pessoas colocarem em testamento as suas contas em rede social; afinal, elas hoje são consideradas bens digitais, com valor considerável.

Independente do seu valor econômico, um perfil em rede social é sim, de alguma forma, um registro da nossa vida, uma forma de lembrança daquilo que fazemos e do que representamos para as pessoas que gostam de nós. Nada mais justo que seja então tratado com zelo e carinho.

Um abraço e até a próxima